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Superávit com EUA pode zerar em 2009

Os Estados Unidos continuam sendo o principal parceiro comercial do Brasil, com uma corrente de comércio superior a US$ 50 bilhões, mas os efeitos da crise financeira internacional já pairam sobre o intercâmbio entre os dois países. O superávit comercial a favor do Brasil, que era de US$ 6,34 bilhões ao final de 2007, somou apenas US$ 2,09 bilhões no acumulado de janeiro a novembro de 2008, e a tendência é de um saldo comercial ainda menor neste ano. "Como a cotação das commodities cairá mais do que o preço médio de outros produtos, o superávit com o mercado norte-americano pode diminuir ou até zerar", diz Fábio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores, lembrando que o Brasil manda para lá principalmente produtos básicos e semimanufaturados e traz manufaturados.
"Além do aspecto do preço, como a previsão é que o Brasil continuará a crescer, as importações tendem a cair menos do que as exportações", completa o economista. Cenário projetado pela RC indica que em 2009 o Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano cairá 1%. A recuperação da economia local, sinaliza Silveira, não virá antes de 2011. A consultoria avalia que a cotação média do petróleo - item mais exportado para os EUA até novembro - cairá 52% frente a 2008, atingindo US$ 47 o barril.
Pelas estimativas de José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), a balança com os Estados Unidos deve ter fechado o ano passado com um saldo positivo de US$ 2 bilhões a US$ 2,3 bilhões.
"Desde 1985 a balança Brasil-Estados Unidos só foi deficitária entre 1995 e 1999, mas em 2009 o quadro muda, porque nossas importações cairão, mas as exportações vão cair ainda mais, devido ao barateamento das commodities", faz coro o dirigente da AEB.
Uma incógnita que se apresenta para este exercício no comércio bilateral com os Estados Unidos é como será a administração Barack Obama. "O viés desse governo será menos livre comércio e mais questões ambientais e trabalhistas", aposta Mário Marconini, diretor de Negociações Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Na opinião de José Frederico Álvares, gerente executivo da Unidade de Comércio Exterior da Confederação Nacional da Indústria (CNI), demorará algum tempo até que a administração Obama se volte para as questões comerciais na América Latina. "O novo presidente vai pegar a economia norte-americana em frangalhos e, por isso mesmo, imagino que ele elegerá duas prioridades: olhar para dentro de casa e para os temas voltados à segurança nacional", diz Álvares. Daí a previsão de que Obama demorará a atentar para temas comerciais, principalmente os relativos à América Latina. Diante disso, segundo Álvares, será a capacidade de recuperação dos Estados Unidos que determinará como será a relação comercial entre os dois países a partir deste ano.
"A questão que se coloca é o que ocorrerá depois de dezembro de 2009 com o Sistema Geral de Preferências (SGP)", afirma Castro, da AEB. O SGP é uma concessão tarifária para produtos específicos que os Estados Unidos concedem unilateralmente para alguns países. Lembrando que o partido democrata tende a ser mais conservador que o republicano, o dirigente da AEB diz que é preciso considerar ainda que temos um parceiro em plena recessão. "Por que os Estados Unidos dariam incentivos fiscais se sua economia está ruim?", indaga.
A exclusão e a inclusão de produtos no SGP são discutidas em meados do ano, para vigorar a partir do ano seguinte. "O Brasil não aproveita tudo o que tem lá. A participação dos produtos que constam do SGP corresponde só a 10% de nossas exportações para os Estados Unidos", calcula Castro.
Marconini, da Fiesp, diz que o Brasil não tem acordo comercial com os Estados Unidos. "Só temos o SGP, que beneficia muito o intercâmbio intrafirma, afinal só 7% do que exportamos para o mercado norte-americano é de bens de consumo final", afirma. O diretor da Fiesp reconhece que as negociações, a partir de meados deste ano, para concessão do SGP de 2010, serão complicadas.
"Esse será um assunto sensível em 2009, porque os democratas defendem que a concessão seja dada a países menos avantajados e não vão querer manter o sistema como ele é hoje", conclui.

Gazeta Mercantil

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