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Tudo errado! O Brasil não sabe como exportar!

     Só no semestre, as exportações recuaram 23,8%, mesmo com o aumento expressivo das vendas para a China e outros emergentes.

      Aqui, o ponto fraco. Esse resultado negativo seria menos grave se não estivessem se concentrando cada vez mais nas vendas de matérias-primas, como revelou o Estado na sexta-feira.

      Estamos importando produtos industrializados e exportando primários. E não se pode esperar resultado melhor porque as vendas de commodities agrícolas, de maior peso no comércio exterior, se concentram nos primeiros meses do ano. Depois, recuam e não devem ser compensadas pelos manufaturados porque a economia mundial apenas sai da recessão.

      Julio Callegari, economista do JP Morgan, assinala à repórter Raquel Landim que a participação dos básicos se retrairá ainda mais nos próximos meses porque o Brasil antecipou as exportações de commodities como soja e minério de ferro.

      Esse cenário pode mudar? Não se espera muito porque ele retrata a forte desaceleração mundial, que afetou mais duramente os países que importavam mais do Brasil.

      Poderíamos alinhar uma serie de estatísticas do Banco Central e do Ministério do Desenvolvimento, mas evitamos para não cansar o leitor porque têm sido amplamente divulgadas pela imprensa. Menciono apenas que, em 12 meses, a queda acumulada das exportações para o mercado americano foi de 40%. Houve recuperação entre julho e agosto, mas continuamos em níveis muito próximos dos 45% registrados nos piores momento da recessão.

      Os EUA estão sendo substituídos pela China, hoje o nosso maior mercado. Isso não anima muito, pois ela importa mais de 80% de produtos primários e nos exporta essencialmente industriais, que veem competir e até desalojar os fabricados no Brasil.

      O G-20 DE NOVO

      Nos dias 24 e 25, os presidentes do grupo dos 20 (G-20) reúnem-se novamente em Pittsburgh para reestudar medidas para sair da recessão; não se espera nada de novo que altere o atual cenário da economia e do comércio mundial. À exceção do Brasil e da China, eles ainda buscam soluções mais consistentes para sair da crise e nem pensam no tal do comércio internacional, onde o protecionismo só cresce.Ou seja, o cenário atual não muda.

      MAS É GRAVE MESMO?

      Não é nenhuma maldição exportar commodities,como afirma, corretamente, a repórter Raquel Landim. Ninguém vai morrer por causa disso. Afinal, há tempos elas estão sustentando o superávit comercial, que, apesar disso, se retrai. Seria pior sem elas, mas não é bom depender tanto de produtos sujeitos a rápida variação de preços. Há riscos no médio prazo.

      Para a coluna, o principal é que as commodities têm efeito marginal na geração de emprego e renda. Vejam os dados do IBGE. No ano passado, o setor de serviços representava 62,3% dos empregos formais, a indústria, 36,4%, e a agricultura, apenas 1,3%. Nesse mesmo ano, a indústria representava 25,% do PIB, os serviços, 66,4%, e agricultura, só 8,6%.

      E este ano o cenário não mudou muito. A indústria patina e só agora volta a empregar, sem, no entanto, ter compensado as demissões do fim do ano passado e dos primeiros meses deste. Levará ainda meses para se livrar de estoques e voltar a investir, o que somente fará se houver incentivos para produzir e exportar.

      PIOR PARA NÓS

      O cenário do comércio mundial continuará retraído nos próximos meses, prevê a OMC. Até aqui nenhuma novidade, dirá o leitor. Mas há, sim. E uma novidade que preocupa a equipe econômica.

      É que o Brasil cometeu a ousadia de acertar antes dos outros. Sim, isso tem um preço. Como estamos crescendo mais que os países desenvolvidos, estamos também importando mais e exportando menos. Ou seja, eles não crescem, importam menos; nos crescemos, importamos mais.

      Sei que isso faz parte da base do comércio internacional, sei que há outros fatores, como câmbio, custos internos, etc. Mas sei também que essa discrepância afeta mais duramente o Brasil porque, atentem para os números, de novo, estamos exportando mais produtos primários, que, vimos, geram pouca renda e emprego, enquanto importamos industriais. Ou seja, estamos criando mais riqueza lá fora do que aqui.

      É o que poderíamos chamar de "a maldição do crescimento desigual". Acertamos desde o início, enquanto eles ainda só agora começam a acertar. E esse cenário não muda no médio prazo simplesmente porque eles levaram um tombo maior.

      E qual é a saída? Sei que o Ministério do Desenvolvimento vem lutando e conseguindo algum êxito para alterar essa situação, mas ele depende da Fazenda, do BC, da Receita, do Itamaraty, de um punhado de órgãos que, parece, não se entendem.

      Olhem, não sou presidente, não sou ministro, não tenho autoridade nenhuma nem moro em Brasília, onde, quando vou, a primeira coisa que faço é marcar a volta para o mesmo dia. Mas arrisco uma sugestão: por que não rever a política do BNDES e investir mais nos setores que precisam produzir e exportar, gerar divisas e emprego? Por que não parar de jogar dinheiro no caixa da Petrobrás, uma das maiores empresas do mundo, que pode, portanto, mobilizar recursos externos? Não é o que o seu presidente está vendo nessa sua viagem pelos principais centros financeiros mundiais?

      O BNDES tem feito um belo trabalho nesta crise, tem uma equipe técnica excelente e poderia desenvolver ou contratar estudos, como fez no pré-sal, para ver como enfrentar os desafios do comércio exterior.

      Não podemos contar com os parceiros comerciais. Acho que estão até chateados porque representamos um pouco mais de 1% do comércio mundial e queriam nos vender mais. E fica a pergunta aos senhores de Brasília: afinal, o que acontece com o comércio exterior do Brasil? Vai viver só de alface?

O Estado de São Paulo

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